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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Roberto Pompeu de Toledo


Elle, o de sempre

"Quando Collor se cansou de Simon e de Sarney, sobrou para quem? O colunista que vos fala. O que disse é mentira. Mais uma vez: MENTIRA. E uma terceira: MEN-TI-RA"Pode sentir-se defendido quem tem em sua defesa a dupla formada pelos senadores Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello? Há defesas que ferem como ataque. Num primeiro momento funcionam, como funcionou a furibunda blitz desfechada pela dupla contra o senador Pedro Simon, na memorável sessão do Senado da última segunda-feira. A torrente de insultos, insinuações e, da parte de Collor, assustadoras caretas lançadas contra Simon intimidou o senador gaúcho a ponto de, como ele afirmaria mais tarde, ter sentido medo físico. Mas o ônus de carregar pela vida afora, e biografia adentro, o fato de ter contado com tais defensores supera o alívio momentâneo. Os senadores do PT sabem disso e conspicuamente procuram se dissociar dos referidos senhores. Já o presidente do Senado, José Sarney, não bastassem os próprios problemas, é refém de um duo cujo abraço aperta, aprisiona e sufoca como tenaz.O senador Collor superou-se, naquele dia, na utilização dos velhos recursos em favor do novo papel de injustiçado e sofredor. Buscando inspiração no aparelho digestivo, ordenou a Simon que "engolisse" as próprias palavras e "as digerisse como julgasse conveniente". Chamou o honrado senador de "parlapatão". E enquanto isso armava seu impressionante repertório de expressões fisionômicas e exalações corporais, um conjunto que, querendo sublinhar indignação, acaba por revelar um perturbador descontrole. A respiração era pesada como a do touro ao investir contra o pano vermelho. Repetiam-se os estranhos olhos fixos de outras ocasiões. E a alturas tantas, quando se cansou de Simon e de Sarney, sobrou para quem? Quem? Quem? O colunista que vos fala. Disse ele que "o jornalista chamado Roberto Pompeu de Toledo, que costuma sujar a última página de uma revista local, se não me engano a VEJA", procurou o ministro Ilmar Galvão, encarregado, no Supremo Tribunal Federal, de relatar o processo contra ele, Collor, à época do impeachment, e lhe propôs: "Ministro, declare a culpa do Fernando Collor que nós daremos ao senhor a capa e as entrevistas de páginas amarelas da revista". O ministro, indignado, teria expulsado o interlocutor de seu gabinete.Deus do céu, quanta pretensão, num pobre jornalista, achar que a efêmera glória do bom tratamento num órgão de imprensa pudesse influenciar o julgamento de um ministro do Supremo! Collor acrescentou que Roberto Pompeu de Toledo não poderia desmentir tal episódio. Pode sim. É mentira. Mais uma vez: MENTIRA. E uma terceira: MEN-TI-RA. A conversa que na época o colunista teve com Ilmar Galvão não teve nunca, jamais e em tempo algum o caráter de (ingênua) negociação do julgamento do ministro contra possível tratamento privilegiado em VEJA. Mesmo se, enlouquecido, o jornalista quisesse fazê-lo, não teria poderes, como não tem agora, nem nunca teve, de dispor da capa ou das páginas amarelas da revista. Seu único e singelo objetivo era informar-se. Claro está que se não houve o principal – uma tentativa de negociação – também não houve o secundário – a expulsão do gabinete. Em todo caso, registre-se que o cinematográfico desfecho pretendido pelo senador é outra mentira, MENTIRA, MEN-TI-RA. A entrevista transcorreu em clima de cordialidade.Como encerrar este artigo? Primeira hipótese: dizer que sujar páginas por sujar páginas, perito mesmo na especialidade é o ex-presidente – no caso, sujar as páginas da história do Brasil. Sentencioso demais. Se os leitores permitem a falta de modéstia, o colunista gostaria na verdade é de congratular-se consigo mesmo. Ao contrário de Sarney, ele não tem Collor como defensor. Tem como acusador. É uma honra.•••Por falar em fisionomia, e para arejar o ambiente com caso oposto ao da carranca oferecida por Collor a Simon, a fisionomia do momento, no Brasil, é a do vice-presidente José Alencar. O fato de ele estar impelido a correr de internação em internação, e de operação em operação, dentro daquilo que se convencionou chamar de "luta" contra o câncer, é o de menos. Como ele próprio alega, não dispõe de alternativa. Muitos também o fariam – e fazem –, especialmente quando têm recursos para pagar o tratamento. O que impressiona é a serenidade com que enfrenta o infortúnio, manifestada no sorriso e no jeito bonachão que estampa nas entradas e saídas do hospital. Seu comportamento, na mais decisiva das horas que espera um mortal, cativou o país. A ele seria dedicada a coluna desta semana, se o homem das Alagoas não se interpusesse no caminho. Fica o registro.

O Rei, presidente

27/01/2009
Depois de reproduzir, na postagem “Obama, por Saramago”, texto de José Saramago sobre as propostas políticas de Barack Obama, reproduzo trecho de um artigo, publicado na revista ‘Veja’, de Roberto Pompeu de Toledo, sobre a posse de Obama e, principalmente, sobre a engenharia política da figura do Presidente nos Estados Unidos, de certa forma, sucessora da figura do monarca, sendo personagem central do regime, embora não tenha coroa e seja investido pelo voto e não pelo sangue. É uma ótima definição, principalmente levando em conta os Estados Unidos, do presidencialismo e dos avanços que levaram até ele.“O presidente dos Estados Unidos é o mais bem-sucedido sucedâneo do rei já concebido pela engenharia política. Eleger um chefe é o passo natural dado pelos primitivos agrupamentos humanos, tão logo se elevam a um grau mínimo de organização. Fazer do chefe um rei, ungindo-o com a mística de um ser especial, por cujas veias corre sangue de cor diferente, e que goza de conexão privilegiada com o divino, é o passo seguinte. Muito mais adiante, quando o cérebro do bicho-homem passa a antepor a razão à superstição e o direito ao arbítrio, a figura do rei entra em obsolescência. Já não se acredita em seres especiais. Mas como, sem um personagem central, investido de suprema autoridade e confirmado pelo sagrado, evitar a anarquia e a dispersão? Os fundadores da nação americana, em resposta a esse temor, inventaram o presidencialismo e, no centro, puseram a figura do presidente. A cerimônia da semana passada em Washington foi a coroação de um rei sem coroa, eleito pelo voto do povo e com mandato fixo – mas de toda forma uma cerimônia de coroação, mais bonita e mais bafejada pela mística do que as cerimônias em muitos dos países que ainda cultuam um rei.”

Roberto Pompeu de Toledo


Outros artigos de Roberto Pompeu de Toledo

http://www.nosrevla.com/home/page3c#1
A sombra da Escuridão
Sua excelência, o Traficante
Fuga na noite e perseguição
O medo de ontem e de hoje

http://arquivoetc.blogspot.com/2007/12/roberto-pompeu-de-toledo_15.html
Niemeyer, 100 anos

Roberto Pompeu de Toledo - Soberana e Imperturbável

Em depoimento pessoal e uma conclusão sobre as relaçõesentre a China e o tempo"O novo embaixador da China telefonou..." Algumas semanas atrás este autor... (este autor?; não: desta vez esta página contém um depoimento pessoal, então vai na primeira pessoa). Algumas semanas atrás recebi esse recado. Faz tempo que não tinha tratativas com a China, então que quereria comigo o embaixador? A rigor, tive tratativas com a China apenas uma vez, já lá se vão 21 anos, quando fui incumbido por esta revista de fazer uma reportagem sobre o país, então ensaiando os primeiros passos na direção do capitalismo, ou socialismo capitalista, ou "socialismo de mercado", ou seja lá que nome essa coisa tenha. Passei três semanas na terra então comandada por Deng Xiaoping, e logo ao chegar fui recebido por duas pessoas com quem conviveria largamente naquele período.A primeira foi o embaixador brasileiro, o inesquecível Italo Zappa, já meu conhecido. Zappa era o desbravador-mor do Itamaraty. Desbravara as relações brasileiras com as antigas colônias portuguesas. Agora estava ajudando a desbravar as relações com a China. "Tudo aqui começa com a política externa", ensinou-me ele. O mastodonte chinês antes escolhe os passos com que se movimentará no meio do mundo, depois aplica as conseqüências disso no dia-a-dia da população. Foi assim que o afastamento da União Soviética, ainda na década de 50, prenunciou a radicalização da Revolução Chinesa. Ou que a retomada das relações com os Estados Unidos, em 1972, executada com tal alarde que incluiu uma visita do presidente Richard Nixon, prenunciou o processo em curso até hoje.Outra lição de Zappa foi que na China não se deve deixar o cão escapar do portão de casa. Seu cãozinho, um vira-lata chamado "Tu", vivia a espreitar a oportunidade de sair, sempre que o portão era aberto para a entrada de alguém. Às vezes conseguia. E então Zappa saía em correria pela rua, no afã de recapturá-lo antes que algum chinês da vizinhança o fizesse. Nesse caso, o destino provável de Tu seria a panela. Chinês gosta de comer cachorro, como se sabe. Aliás, chinês gosta de comer tudo. Um dito da terra apregoa que chinês come tudo o que tenha quatro patas, exceto mesa.A outra pessoa que me recebeu em Pequim foi Chen Duqin, destacado pelo Ministério das Relações Exteriores chinês para me servir de intérprete. Eram espantosos o domínio que Chen tinha do português, inclusive do português coloquial do Brasil, e o nível de informação que tinha do país. Seu leve sotaque, muito leve, lembrava o do índio Juruna, então em voga. Para mim, era a prova que faltava, irrefutável e indesmentível, de que os índios americanos vieram da Ásia, caminhando pelas geleiras que então cobriam o Estreito de Bering. Chen tinha servido na embaixada chinesa em Brasília. Uma vez, durante nossa estreita convivência, eu o peguei comentando com outro chinês que, no Brasil, se alguém queria ligar de uma cidade para outra, bastava discar uns numerinhos prévios. Na China não havia DDD. Outra vez, ele comentou que quando vivia no Brasil não tinha tempo para nada. Na China lhe sobrava tempo.A China daquele ano de 1985, embalada pelas reformas de Deng Xiaoping, apregoava como novidades a possibilidade de as pessoas estabelecerem um negócio próprio, desde que modesto, e a de um camponês cultivar seu próprio pedaço de terra, desde que modesto. Quanto às empresas, todas estatais, elas tinham ganho a possibilidade, primeiro, de tomar suas próprias decisões, dentro de um certo limite; segundo, de vender uma parte da produção no mercado, e não para o Estado, dentro de outro limite; e, terceiro, de se associar em joint ventures (as duas palavrinhas eram tão freqüentes nos lábios dos chineses quanto ni hao, a expressão com que se saúdam) com investidores estrangeiros, respeitados outros tantos limites. Com cuidados de mastodonte, a China ensaiava entrar no baile capitalista.Ao mesmo tempo, com calculados beliscões no próprio corpo, tentava despertar de seu milenar sono rural. Talvez fosse a esse sono que Chen se referisse ao dizer que na China lhe sobrava tempo. Mas pode haver outra explicação para o tempo que lá se estica, se expande e se avoluma. Ao contemplar certa vez a multidão de chineses que, num parque, como em todas as manhãs, começavam o dia com os movimentos lentos e ritualísticos do tai chi, veio-me a revelação, como um raio: a China tem parte com a eternidade. Ela é a mais antiga civilização ainda em atividade. Viu muitas outras nascer e morrer. Tem uma experiência sem igual no planeta Terra.Ao responder ao telefonema do novo embaixador chinês, eu me dei conta de que... sim, era o Chen. Meu antigo intérprete e amigo chegou ao topo da carreira. Não sei que China é essa que ele veio representar. O leitor, ao chegar a esta página, já sabe como é a China dos dias que correm, mas eu não li a revista ainda. O que sei é que, comunista ou capitalista, rica ou pobre, a China impõe-se ao mundo, soberana e imperturbável como um deus.